terça-feira, 15 de novembro de 2016

She's lost control

O tédio me trouxe aqui novamente. Não a falta do que fazer, mas a vontade de ter que cumprir com todas as minhas responsabilidades.

Outro dia, enquanto estava dando uma volta no bosque encantado que existe debaixo da minha cama, avistei uma menininha, na verdade uma mulher, tão pequena e frágil que chegava a dar medo. Fui conversar com ela, que parecia um pouco incomodada com a fumaça do meu cigarro e quando cheguei mais perto, percebi que ela era um homem velho. O rosto, o corpo, o jeito de andar eram os de uma frágil mocinha, mas o coração era de velho, as palavras eram de velho e o olhar também. Me assustei, o cigarro caiu da minha boca e formou uma pequena chama na grama sob meus pés na qual apenas dei umas pisadas e apaguei, foi-se como fumaça, pobre chama... A menina, garota, mulher, homem velho, saiu correndo me mostrando o dedo do meio... Fazer o quê? Eu também era um homem velho, um homem velho e drogado.

Foi então que, sozinha em meu quarto sentada na parte mais fria e vazia, eu percebi o quão aquilo era uma besteira gigante! É lógico que aquela menina era um homem velho! Assim como ela podia ser uma garotinha frágil e assim como ela poderia ser uma velha ranzinza. Assim, como eu não aparento ser um velho safado, ela não aparenta ser seja lá o que for, tanto faz a cara, o corpo, o jeito de andar, é tudo fachada.

Não lembro qual foi a última vez que me senti equivocada assim sobre alguém, mas sei que isso não vai acontecer de novo, porque ninguém é ninguém e todo mundo é qualquer um.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Desfrutem aí dessa bagunça"

Me posicionei bem em minha cama, coloquei pra tocar a trilha sonora do meu desenho preferido e procurei as palavras certas para colocar aqui. A procura foi porém cansativa e triste, pois pior do que sentir tudo o que sinto é saber que não há palavras que possam transcrever tamanha decepção e tristeza.

Todos os dias me sinto tão imersa nas injustiças do mundo, tão indignada com a vida e os rumos que a mediocridade humana toma. Todos os dias me sinto extremamente triste por não encontrar resquícios reais de amor, honestidade e bondade. Mas sequer consigo me posicionar diante disso. Talvez por medo ou fraqueza, não sei. Só sei que constantemente meus olhos marejam, minha garganta aperta e meu peito queima, e a única coisa que peço é que todos consigam enxergar o quão vis estão sendo. 

Sempre que vou ao médico, tenho um enorme desejo de que ele possa sentir o que eu estou sentindo, pois muitas vezes simplesmente não é possível descrever como é a dor que sentimos, se é como uma pontada, uma pulsação, uma ardência... As vezes só dói de um jeito que não da pra explicar! Ou dizer quando dói mais ou qualquer outra coisa. E qualquer resposta me deixa apreensiva, e se eu caracterizar meus sintomas de um jeito errado e por isso algum câncer maligno não for diagnosticado? E se por isso ele me receitar um remédio errado que agrava mais minha doença?

Eu ia escrever, e antes de apagar toda essa tentativa sem nexo algum,eu... Bom, eu não vou apagar mesmo, então desfrutem aí dessa bagunça.

Blur

Eu só queria minha vida de volta.

Não lembro muito bem, mas creio que a maioria dos textos que escrevo para o blog não estão em primeira pessoa, mas esse aqui é um grito no meio do escuro que eu não podia mais segurar.

Fazem alguns anos que deixei minha vida lá num cantinho frio enquanto vivia uma novinha que era de nós dois. Como já disse, qual a graça da vida se não reclamar da mesma? E com essa não podia ser diferente. Fui vendo-a se despedaçar pouco a pouco, ficar suja e bem machucada, mas ainda gostava dela, gosto na verdade, reclamava sim quase sempre, mas era minha, nossa vida agora. 

Quando criança, tinha um tênis que eu amava demais, estava sempre o calçando, mesmo quando a sola furou no calcanhar e ele já estava bem velhinho continuava usando-o, mas um dia descobri que minha mãe havia jogado o par de tênis no lixo pois estavam gastos demais... Fiquei muito triste mas depois me conformei e entendi, por mais que gostasse daqueles sapatos, usá-los gastos não fazia o menor sentido. Acho que muitas coisas podem ser comparadas a usar um sapato gasto, muitas vezes insisti pra que algo desse certo, apenas porque gostava muito de alguém e havia passado momentos maravilhosos ao lado dessa pessoa, mas assim como qualquer coisa, as relações se desgastam, as pessoas mudam e se distanciam, as ideias começam a divergir e de repente nos vemos caminhando por trilhas diferentes, e de nada adianta conservar um relacionamento aos trapos.

Porém é difícil e doloroso decidir se livrar do par de sapatos preferido, assim como o é se despedir de alguém. A dor da morte e o medo do desconhecido... No momento soluços tomam conta da minha garganta e as lágrimas esquentam o meu rosto, estou morrendo de medo e me derretendo em tristeza, odeio despedidas. Mas não precisa ser mesmo uma, certo? Ninguém sabe bem os sapatos novos que um dia terão, e ninguém sabe bem se não seria melhor apenas trocar as solas do sapato velho. Independente da resolução, sigo com meu luto precipitado.


domingo, 6 de setembro de 2015

Cegueira

O que você vê?

Ando pensando muito enquanto ando de ônibus, e ando andando muito de ônibus. Mas quando ando de ônibus, não estou mesmo o fazendo. Nem mesmo vejo a paisagem que corre através das janelas. O que eu vejo então? O que há de mais para se ver? 

Já vi as estações passarem, pessoas morrendo, casais se amando, dinheiro caindo. Já vi coisas que ninguém mais poderia enxergar, coisas do universo e coisas da imaginação. Momentos tristes, momentos alegres, vi coisas que não gostaria de ver...

Mas ainda há muita coisa para se ver. Ver não apenas com os olhos, ver com a alma, ver sentindo, ver sorrindo, ver chorando e gargalhando. Há tanta coisa no mundo, tantas coisas horríveis e inacreditáveis, tanto medo e tanto amor, tanto ódio e rancor. E ainda consigo ver a luz que reflete esta frágil e gentil face de esperança, dizendo para continuar. Mesmo quando a escuridão nos bloqueia a visão, mesmo sem ver, ela estará lá. E é por isso que eu não me importo com o que vejo. Senti-la, já é o mais que o suficiente.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Melhor não mexer

Um dia fui achada na praça, como uma gata abandonada. Ele me levou pra casa, me alimentou e me deu muito carinho, meu novo companheiro era muito bonzinho. As vezes ainda tentava fugir de novo, ficar sozinha, mas havia algo nele que não me deixava fazer isso, então eu fiquei e fiquei e fico até hoje.

Mas ando muito cansada... Meus pés só andam se eu arrastá-los, e preciso fazer muita força pra pensar. Alegria é algo que eu não consigo mais sentir e nem tenho vontade. Meu companheiro as vezes entende, mas as vezes também se cansa, as vezes também sente, as vezes não faz nada.

Não sei se nos ajudamos assim, nem sei por que não saio correndo pra bem longe. Talvez por preguiça ou por realmente existir algo maior que me prenda a ele, não sei. Por enquanto ta bem bom assim e é melhor deixar do jeito que está, mesmo não conversando direito ou querendo me matar sempre que alguma coisa dele vem a minha mente, ou até mesmo começar a chorar quando penso nele. Ta bem bom assim, eu acho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Aonde foi o príncipe encantado?

Para onde foram aqueles príncipes das histórias encantadas? Onde podemos achar aquele homem - se é que podemos chamá-lo homem, tão desconstruída sua imagem - que nos fará acordar desse pesadelo horrendo? Em qual direção devo seguir para cair em mim e parar de acreditar nesses absurdo de príncipe encantado?

Imaginem um homem da Idade Média, - tempo em que a maioria dos contos de fadas acontecem - tentem lembrar um pouquinho das suas aulas de história e usar o mínimo de bom senso e realismo. Será que ainda da pra acreditar que uma donzela poderia ser acordada com o beijo de amor verdadeiro de um príncipe bem limpinho, generoso, bonito e apaixonado? Não que realmente alguém tenha chegado a acreditar, além de ser praticamente impossível existir um homem com esse perfil na época, não existe esse tipo de amor verdadeiro.

Mas as vezes as pessoas tem tanta vontade de acreditar nesses filmes, nessas histórias, que acabam se frustrando a cada relacionamento falho. Cada vez que, ao invés de viver feliz para sempre com "a pessoa amada", você acredita que a qualquer momento pode se atirar na frente de algum caminhão; cada vez que a madrasta é mais legal que sua própria mãe; e cada vez que uma casa de palha se mostra mais resistente que uma casinha de tijolos com o teto de vidro, você ignora e acha que sua vida está errada.

O mundo é cruel, bem vindos a realidade. Crescer com o martelo dos contos de fadas na cabeça nos faz esquecer da lição mais valiosa que existe nessa vida, que não existe bem ou mal, não existe feliz para sempre, ninguém virá te salvar em algum momento de apuro. Nesse mundo existem pessoas, que de tão iguais as vezes acabam brigando, e de tanto apreço que sentem umas as outras, acabam se decepcionando. Mas por mais que você sofra, se sinta incapaz, covarde e amedrontado, ninguém poderá andar por você. Não espere ser acordado por algum príncipe encantado, a realidade está ao seu redor e ninguém irá pegar na sua mão e te levar ao caminho certo. Se existe algum herói na sua história, esse herói é e sempre será unicamente você.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Geração torcicolo

As crianças cresceram e suas cabeças estão voltadas para baixo. Os olhos vidrados nas telas de um lugar diferente do que estão, um mundo abstrato, incrível e emburrecedor.

Uma estranha definição é feita, aquela de que os que não conversam e interagem são os mais bem sucedidos. Eles fazem parte da sociedade virtual insana.

Assim, nosso papel acabou por ficar extremamente complicado e confuso. O que pode ser definido como absurdo, tolerável, certo, errado, bom, ruim, real ou virtual? O que vai acontecer com a geração torcicolo quando seus manipuladores pararem de ser abusivos, preconceituosos, persuasivos e emburrecedores?

Creio estar equivocada em minha pergunta. O questionamento correto é "O que está acontecendo?"

Ao mesmo tempo que nossos rostos estão virados para a incrível maquina do universo, nossas mentes escolhem ter o que há de pior nele! O que há de mais banal e sucintamente chocante, mas tentador o suficiente para nos fazer expor atrocidades confusas e falsamente verdadeiras.

As crianças cresceram e estão perdidas, sem saber qual o melhor passo a seguir: o da máquina do universo ou o da rejeição social.